terça-feira, 6 de maio de 2008

Uma Rua diferente

O tranqüilo quarteirão da Rua do Fio e Passagem Simões acorda às sete horas da manhã, quando aquela porta barulhenta da frutaria número 324 é erguida pelo comerciante Davi. Enquanto ele descarrega os pesados caixotes de frutas, verduras e legumes que abastecem boa parte do bairro da Guanabara, Davi improvisa os trechos já não lembrados da música “Fio de cabelo”, sucesso de Chitãozinho e Xororó, dupla sertaneja que bem marcou os fins de tarde de sua juventude. Ainda que a cantoria não seja das melhores, Davi contagia seus fregueses com a simpatia.

A partir desse instante, o movimento na rua não pára mais. Os vizinhos se reúnem para contar seus sonhos e fazer aquela fezinha no “jogo do bicho” e claro, muitos deles, para perguntar o palpite de Davi. Porque não?

Na madrugada do dia 4 de maio de 1994, Davi reunia a esposa e suas duas filhas, cada uma segurando uma boneca e fotos envelhecidas, da sofrida história da família no sítio “Fé em Deus”. A pacata zona rural do município de Almeirim, no estado do Maranhão, ficava para trás à medida em que o vento soprava mais forte na carroceria do caminhão que conduzia a família de Davi “rumo a civilização”, como explica o comerciante.

O sorriso que não se desfaz e a simplicidade com que atende a clientela, são as características mais marcantes do vendedor. A audição, levemente roubada pelo avanço da idade, faz com que seu Davi, muitas das vezes traga “carvão”, em vez de “sabão”. Os fregueses levam na brincadeira e sugerem quase que em uma só voz: “Era Sabãoooo seu Davi”.

Quem passa pela rua, muitas das vezes, toma um susto com gritos como: “Seu Davi, tem sabão em pó?”. A resposta vem quase que instantaneamente. “Tem não, mas tem pão”. Bom humor, nunca falta mesmo ao comerciante, ainda que o Payssandu, time do seu coração, não esteja em seus melhores momentos no campeonato paraense.

O rádio de pilha, sempre ligado na emissora de ondas médias mais antiga do estado, disfarça os momentos de menos movimento no comércio. È quando ele divide a atenção entre as reportagens policiais radiofônicas e sua Bíblia Sagrada, livro que não sai de cima balcão.

O inicio da tarde, faz com que aumente a sensação de insegurança. Logo, o empreendedor se refugia atendendo os clientes ali mesmo, pelas grades. As compras são espremidas de uma extremidade a outra da das ferragens que protegem o ponto comercial.

A motivação que sobra em Davi, é a mesma que falta em muitos trabalhadores que, assim como ele, levam uma jornada de trabalho longa e cansativa, de domingo à domingo.
No final do dia, os mesmos passos que o trouxeram conduzem-no para o segundo andar, onde construiu uma casa. Do sobrado, ele se despede de seus fregueses e amigos, sempre ouvindo a mesma frase, “ Cadê o teu papão Davi?”.