domingo, 15 de junho de 2008

Quando o Analfabetismo Triunfa

As pesquisas que têm chocado o Brasil lembram que o lado exuberante do país pode até maquiar os problemas de educação, mas jamais apagá-los.



A beleza das grandes metrópoles brasileiras em suas modernas e ousadas construções pode esconder uma realidade escura e comovente. É quase impossível pensar que apenas 25 % dos brasileiros acima dos 15 anos possui a habilidade de leitura e escrita, segundo uma pesquisa divulgada pelo Ibope. O percentual é lamentável, mesmo o Brasil sendo comparado com países da América latina, os índices ainda são alarmantes, comprova a pesquisa da Unesco. O teste era simples. Feito através de eliminação prévia contendo 7 questões que avaliavam quem estava apto para responder o questionário principal. Prosseguiam os indivíduos que respondessem corretamente a pelo menos 5 do total de questões. Da população que obteve êxito acertando 5 ou mais itens do teste preliminar destacam-se a o Chile com 77%, a Argentina com 72,3 % e o Brasil com 62 % dos acertos, seguido da Colômbia com 49,6 %, México e Venezuela com 42,7 e 44,6% respectivamente.
De acordo com a ultima pesquisa, 38 % dos brasileiros enquadram-se no quadro dos analfabetos funcionais, não conseguindo utilizar a leitura e a escrita na vida cotidiana. Desses brasileiros, 8% são completamente analfabetos e 30% tem baixas habilidades. Para o Cientista Social Yuri Maia, o levantamento mostra uma tendência de queda no hábito de leitura entre 2001 e 2003. "A nossa população por uma série de fatores de ordem política, cultural e social não pratica o hábito da leitura, o que acaba contribuindo decisivamente para esse quadro", Explicou Maia.
Vale destacar, ainda, que muitas pessoas escondem a dificuldade de compreensão, segundo a Pedagoga e autora de várias pesquisas sobre o tema pela UEPA, Carmem Lúcia, algumas dessas pessoas no trabalho por exemplo,perguntam aos colegas o que devem fazer, pois as explicações nos manuais de orientação não são suficientes. "Tive alunos que estagiaram em escolas de educação para jovens e adultos, e eles reclamam que é muito difícil. Em uma prova por exemplo, faz-se necessário muita orientação, mesmo tudo estando no comando da mesma", Disse.
Maria do Socorro, que é também pedagoga, estudou o tema em sua tese de conclusão de curso em 2003 pela Uva - Universidade do Vale do Acarau. Ela sustenta, essencialmente, que o analfabetismo funcional é um dos problemas mais sérios do país. Em sua pesquisa, procurou apontar hipóteses para o problema, "os educadores são conduzidos a pensar a educação como um processo descontinuado, quando na verdade, faz parte de um todo. Isso aliado a baixa qualidade de ensino, muitas vezes causado pela baixa valorização do profissional da educação", explica.
No bairro da Guanabara, Ananindeua/PA um casal argumenta que nunca teve oportunidade de permanecer na escola, "sempre que meu marido conseguia trabalho tinha que sair da escola, e eu como trabalho de doméstica, não tinha como estudar a noite, porque minha patroa mora muito longe", Diz Conceição. "Não tive como aceitar que minha esposa continuasse na escola, além dela trabalhar temos um filho para cuidar, ele ja fica com o visinho o dia todo, precisa dela" Questiona o pai de Pedrinho, 5 anos, que Não quis ser identificado.
Edivânia Ferreira, 34 anos, conta que sabe assinar seu nome. Freqüentou a escola até a segunda séria do 1º grau. "Mas eu sou insegura para trabalhar, já pedi demissão duas vezes por não saber ler direito e escrever, é muito difícil conseguir trabalho, e me acho velha para estudar de novo" Relata. Pessoas como dona Edivânia sentem-se excluídas da sociedade até por não conseguirem ler a legenda do filme que assistem. Analfabetismo funcional é o termo mais correto para tratar do problema das pessoas que conseguem distinguir os códigos lingüísticos, mas não possuem capacidade cognitiva para a leitura, escrita e interpretação dos mesmos.